Ao final de 32 horas de viagem, a mais longa até à data, chegámos a Kuala Lumpur, a capital da Malásia. Por não sabermos ao certo quando íamos chegar à cidade, não reservámos nenhum quarto e tivemos de nos “colar” a uma ABC (American Born Chinese, tal como a própria se apresentou), muito simpática, por sinal. Foi com a mesma que nos dirigimos, a pé, em direção ao hostel, percurso durante o qual nos fomos apercebendo da diversidade cultural existente, figurada quer no rosto das pessoas (malaios, indianos e chineses), quer nos edifícios e ruas. Depois de atravessarmos toda a Chinatown, chegámos ao hostel.

Passámos mais um dia na cidade, por onde andámos a divagar entre estradas, edifícios, parques, fontes, museus e mesquitas. Nesta cidade vimos ainda as maiores torres gémeas do mundo – as “Petronas”. Regressámos ao hostel com a imagem de uma cidade influenciada pela religião muçulmana, a religião mor do país.
Ao terceiro dia, deixámos então aquela cidade com rumo a Malaca, uma ex-colónia portuguesa (apenas 2 horas de viagem, como quem vai a Vila Meã, ali logo ao lado).
Naquela cidade simpática, onde passámos dois dias, sentimo-nos, mais uma vez, “todos vaidosos”. Os portugueses chegaram a Malaca em 1511 e deixaram muitas marcas por toda a cidade, durante os 130 anos que lá permaneceram.
Mas Malaca foi igualmente inglesa, holandesa e japonesa. Mas foi atrás das pegadas portuguesas que andámos a marcar as nossas:
fomos a igrejas, visitámos uma réplica de uma nau portuguesa, ruínas de um forte, uma região de Malaca chamada Portuguese Settlement (colonização portuguesa), onde ainda vivem os descendentes dos navegadores dos descobrimentos que ficaram na Malásia depois da retirada de Portugal (em 1641), e mesmo pessoas, mais propriamente o Sr. Jorge Alcântara.
Este senhor conversou connosco usando o português que aprendeu com os pais (e que poucos praticam), mostrando-nos que, apesar da distância (do tempo e do espaço) se mantêm algumas tradições. Tanto que nos cantou excertos da música do “Malhão” e do “Bailinho da Madeira”, falou-nos das festas dos Santos Populares e danças típicas portuguesas. Curiosamente, ficámos a saber que algumas palavras do malaio tê^m raízes portuguesas, como “soldadu”, “sepatu” e “mantega”. Seguidamente, o Sr. Jorge mostrou-nos alguns livros de registos que tem com dedicatórias escritas em português, que recolheu de pessoas que iam àquele zona almoçar ao “restaurante Lisboa”, do qual ele é dono. Vimos mensagens escritas por portugueses, brasileiros, timorenses, macaenses… e que tinham mais anos do que nós, e foi depois de lermos algumas que escrevemos a nossa. Fomos jantar ao mesmo restaurante, mas infelizmente não serviam cozido à portuguesa, então ficámo-nos por um frango de fricassé (devidamente adaptado ao paladar local)- nada mau para matar saudades. Veja excertos da entrevista no seguinte vídeo.
Concluída a nossa missão na Malásia, zarpámos para Singapura, o nosso 21º país. E aí começa a aventura que vos prometemos contar, cá vai: quando estávamos a atravessar a fronteira e prestes a entrar no país, o raio-x de controlo denunciou algo, razão pela qual me pediram (Tiago) que abrisse a mochila. Perguntaram-me então se transportava algo que não tivesse sido declarado, como cigarros, ao qual eu respondi negativamente. Qual não foi o meu espanto quando me disseram que estava a transportar algo estritamente proibido no país: uma bala.
E sim, estava mesmo lá. Uma bala com 9.5 de calibre e 9cm de comprimento.
Recuemos uns países atrás até aos Killing Fields, Camboja, lembram-se? Foi lá que, surpreendentemente, me deparei com uma bala no chão, toda suja de terra e com aspeto velho. Pego, olho, comento com o Gonçalo e, com a felicidade de quem acabou de encontrar um souvenir bastante incomum, coloco-a na mochila e continuo a visita aos campos. Na Tailândia, alguns dias depois, vejo-a no bolso da mochila e, já sem me lembrar que a tinha guardado, passo-a por água para tirar a sujidade e coloco-a junto com as outras pequenas recordações que tenho comprado/ trazido de cada país. Passei duas fronteiras sem ter sido “detetado”, mas a terceira foi de vez. Estupidamente, nunca me lembrei que aquilo pudesse criar algum problema, era tão velha e sem arma a bala não serviria de nada. Fui então levado para uma sala com alguns policiais, fui interrogado, levaram-me para outra sala, quiseram saber todos os pormenores, tive de assinar papeis, tirar impressões digitais, mostrar fotografias do sítio onde a encontrei, levaram-me para outro piso, fui de novo interrogado, perguntaram-me se tinha intenções terroristas e quiseram saber a história toda de novo. Registaram o percurso todo de viagem e as datas em que permaneci no Camboja. Vi na mesa já um arquivo com fotocópia do passaporte, de vistos, uma foto ampliada da bala, as minhas declarações todas por escrito, parecia um verdadeiro criminoso. No final de cerca de duas horas, deixaram-me sair, mas ficaram-me com o passaporte para garantir que não saía do país enquanto continuavam a investigação. Que grande susto…
E eu (Gonçalo) lá estava: sentadinho na sala de espera, onde me serviram café e me ofereceram biscoitos e rebuçados. Falaram comigo sobre tudo para que não me aborrecesse e deixaram-me inclusive trabalhar no computador, eu cá só me ria…
Quando tudo acabou, o autocarro, obviamente, já tinha seguido sem nós, e por isso tivemos de comprar outro bilhete para a Little India, a zona onde íamos ficar alojados. No dia seguinte de manhã fomos conhecer Singapura.
Neste dia, resolvemos não usar transportes públicos, queríamos chegar ao centro da cidade a pé, e não foi assim tão difícil. Desde cedo nos apercebemos da perfeita consonância existente entre o desenvolvimento em massa e a natureza que a cidade ostentava , os arranha céus e estradas estavam em perfeita harmonia com as árvores e os relvados. Tudo magnificamente limpo – resultado da enorme preocupação de limpeza daquele país, onde é proibido até mascar pastilhas elásticas.
Quando chegámos à baixa da cidade, tudo aquilo nos pareceu um autêntico museu de arquitetura, mas à escala real. Contornes, formas, tamanhos, estilos, todos os edifícios tinham a sua particularidade e a sua assinatura única naquele estupendo panorama. À noite, a cidade ganhava outra vida e mostrava a sua outra face iluminada, igualmente maravilhosa. Sempre cosmopolita e movimentada, as palavras que descrevem o país.
Em termos de qualidade vida, pareceu-nos excecional. É segura, a média de ordenados é alta, a taxa de desemprego baixa, com muitas oportunidades e coisas para fazer – pareceu-nos uma ótima cidade para se viver. Mas atenção, para nós portugueses (e para a maioria dos países europeus), o custo de umas “férias” na cidade é bem elevado…
Por tudo isto, adorámos Singapura!
Selamat tinggal, kawan!
